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Capítulo 1: A MORADA DOS SABERES

Mito, sonho e ciência em São Mateus do Sul
Andrius Felipe Roque

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Na divisa com o azul do céu estão altas araucárias, que com seus longos galhos abraçam umas às outras formando massa densa e amiga, anunciando a região. Outras, espalhadas pela cidade, braços atrofiados por casas e comércios, derrubam espinhosas grimpas em choros de solidão. Visitam-lhes os passarinhos, que pousam em seus galhos para sussurrarem notícias das matas e cantarem pios saudosistas dos tempos de Mata Atlântica. Como rabisco de criança que aprende os primeiros traços, o Iguaçu marca sua divisa, dizendo que daí pra cá estamos em São Mateus do Sul. Ou Samas, para os íntimos.
Ninguém conhece mais a cidade do que o chimarrão. Ele está na igreja, nos bailes, nas praças e, principalmente, nas casas. O sabor forte do mate concentra tradições, amizades e histórias; por isso, pode parecer amargo quando experimentado pela primeira vez. Mas, papo vai e papo vem, e seu aroma nos convence ao prazer de compartilhar a cuia.
É assim na casa de seu Antonio. Rotineiramente, às 16 horas, ou de maneira especial em outro horário, quando recebe um amigo. Da varanda de sua casa, se prepara para sentir o cair do dia, a fronteira entre tarde e noite delimitada pela revoada de pássaros.
Foi numa dessas tardes que percebeu a camionete chegar à antiga casa da frente e dela desembarcar um grupo. Do lado da boleia, saiu moço alto, de barba por fazer e cabelos esvoaçantes. Acompanhavam-no outro rapaz em pinta de galã, barba grisalha, e uma mulher de cabelo preso e bronzeado de quem vem da praia. Abriram o pequeno portão e subiram pela escada lateral. Olhares especulantes de quem tudo examina, sorrisos cúmplices de interesse. Do outro lado da rua, Seu Antonio coça a barba e cruza as pernas em sinal de curiosidade:
– Hum… que gente! Tão procurando coisa. Que será?
Nos dias seguintes, pôde assistir muitas movimentações. Outras pessoas entravam e saíam da casa, homens, mulheres, crianças, alguns rostos vizinhos inclusive. A maioria não. Subiam caixas, móveis, livros. Certa feita, de estranhamento chegou a queimar os dedos quando completava a cuia com água quente: viu os novos vizinhos descarregarem pedaços de galhos, uns matos e bichos empalhados. Tinha gralha-azul, bugio, cotia, lagarto, tatu e até uma onça mais comprida do que o comum e com cara assustada.
– Mulher! Vem ver! Olha o que tão descendo da camionete…
Dona Suzana se espichava:
– Ouvi dizer que é tudo professor, Toni.
– Professor?! Professor… não sei… Bicho pra quê? Tô vendo tudo.
Levaram a conversa para o jantar. Depois a novela distrairia o assunto, mantendo-o em aberto, suspenso. Caso inconcluso.
Os barulhos de martelado na manhã seguinte chamaram seu Antonio à janela, de onde viu colocarem placa no gramadinho inclinado à frente da casa suspeita. Só poderia ser o anúncio do que se inauguraria ali. Firmou a vista que teimosa se turvava.
– Morada dos Sabores? Ahn? Mulher – gritava – é Morada dos Sabores, vem ver.
– É saberes, Toni, Morada dos Saberes – corrigia Dona Suzana, orgulhosa da visão que conservava, sem carecer de óculos, aos 60 anos.
Em seus pensamentos, o velho não se conformava. Morada dos Saberes. Que era isso? Bichos, galhos, professores, livros, mesas, morada e saberes. Suas hipóteses não se acertavam, restavam o problema e a inquietude diante da dúvida. Repassava os acontecimentos, avivando sua memória. Tinham desestruturado sua rotina, motivado sua curiosidade e resgatado um ânimo de juventude há tempos adormecido. Era como uma sede.
Ficou assim o dia todo. Nem chimarrão, nem janta, nem novela o distraíram. Foi dormir encucado.
À noite sonhou. Diante da casa do outro lado da rua começaram a aparecer centenas de pessoas, que tomaram cada espaço da rua. A essas pessoas se juntaram os mais diversos bichos, da região e desconhecidos. Araucárias e outras árvores haviam aparecido por toda a calçada, fazendo fresca sombra e servindo de poleiro. Todos se misturavam e conviviam sem estranhamento algum. Algumas crianças brincavam com macacos. Revoadas de pássaros de todas as cores desenhavam no céu ou pintavam o telhado da casa. Era uma multidão em perfeita harmonia.
De repente, tomou lugar no patamar da casa uma deslumbrante mulher. Ela bradou:
– Sejam bem-vindos à sua morada.
E toda aquele ajuntamento vibrou, cada um à sua maneira. Gritos, pios, urros, coaxares, rugidos, estalares e latidos se misturaram em coro uníssono. A dama então desenrolou um precioso pergaminho e iniciou seu discurso:
Certa vez, não se sabe quando, aconteceu um grave acidente num lugar chamado “Templo dos Saberes”. Uma intensa explosão derrubou as estruturas que cobriam e protegiam o rico tesouro do conhecimento humano. Como não havia consenso sobre a origem e maneira como havia sido construído o tal lugar, se decidiu ser impossível a sua reconstrução. A partir de então, os Saberes passaram a viver como itinerantes, dispersos, encontrando pouso nas cabeças pensantes deste nosso mundo. Assim, cada ser humano passou a saber um pouquinho, já que não houve e nunca mais haverá espaço único que hospede todos os Saberes. O mais legal foi que, quando homens, mulheres, idosos, jovens e crianças se encontravam para amar, brincar, festejar, conversar e até mesmo para brigar, os conhecimentos que os acompanhavam interagiam também e se multiplicavam, de forma que nem mais a gente toda do planeta Terra foi suficiente para abrigar tanto saber. Houve total descontrole da taxa de natalidade da vida inteligente. A solução encontrada (vale dizer, pelos próprios saberes), então, foi a de passar a se alojar nas coisas do mundo. Livros, computadores, música, obras de arte, fenômenos físicos, químicos, biológicos ou sociais, árvores, animais, coisas pequenas, grandes, visíveis a olho nu ou não, enfim, tudo que existe, asilou um conhecimento. É por isso que, hoje, vire e mexe, a gente descobre algo quando está observando o mundo e a realidade que nos cerca.
Mas… sabe que, lá no fundo, os saberes sentem uma saudade daquele tempo em que viviam juntos num lugar só? Amigáveis que são, gostam de se reencontrar, relembrar suas histórias, apresentar os novos amigos e falar dos que já não estão mais tão presentes.
Alguns humanos perceberam isso e, mesmo sem saber os segredos da construção do antigo Templo, decidiram criar salões que possam ao menos reunir alguns poucos conhecimentos e celebrar esse encontro. Disso surgiu o projeto “Morada dos Saberes”. O Meio Ambiente, a Educação, a Arte e todas suas companheiras, a Tecnologia, a Cultura, a História e a Identidade Regional, todos, já foram convidados e marcaram presença nos nossos debates, palestras, oficinas, intervenções culturais, exposições e cursos. A casa pode até não ser grande, vejam, mas com certeza tem espaço também para você e para o que você sabe. É até muito provável que o conhecimento que você carrega queira se hospedar por um tempo na nossa Morada. Caso isso aconteça, fica decretado o acordo: quem deixa um saber como hóspede deve levar outro junto consigo. Essa é a regra! Pelo menos até que seja possível reconstruir aquele Templo.

Seu Antonio abriu os olhos lentamente. E sorriu, satisfeito. Quando a manhã chegou, vestiu seu traje de rotina, tomou um bom café, beijou a mulher e se pôs em espera à frente ao portão de sua casa, munido de sua mateira. Quando a outra casa, ou melhor, a Morada dos Saberes, teve suas portas e janelas abertas, passou o pente no cabelo e atravessou a rua.
Na sala que introduzia o espaço, foi recebido pela voz rouca da vizinha.
– Bom dia, seja bem-vindo.
– Olá. Sou o vizinho da frente. Vim conhecer o projeto – e erguia a mateira, insinuando.
– Claro! Fique à vontade! Vou esquentar uma água para o mate e já volto.

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