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Capítulo 2: SABERES DAS ARAUCÁRIAS

Gledson Vigiano Bianconi, Janael Ricetti e Michel Miretzki

O que dizer de uma das mais exuberantes florestas existentes? Palavras sobre a importância de suas plantas, como o pinheiro e o mate? Ou sobre seus animais? Ou ainda sobre a manutenção do clima, água e solos férteis? Muitas são as possibilidades de mostrar as características da Floresta com Araucária. Conheça, aqui, o que o projeto Morada dos Saberes resgatou para você.

araucaria

Quem anda pelos caminhos de São Mateus do Sul está acostumado a sentir o cheiro das flores do campo, ouvir o vento assoviando enquanto atravessa os pinhais ou, ao mesmo tempo, as vozes das saracuras, dos tucanos e dos papagaios, com um fundo melódico cantado pelos sabiás. Quem olha a paisagem são-mateuense está acostumado aos tons exuberantes das frondes das imensas árvores. Está acostumado a sentir o frio do orvalho da manhã e se esquentar na tradição do mate, que tem em sua origem a exploração de ervais que se desenvolvem debaixo dos galhos das araucárias.
Todas essas sensações nos são proporcionadas pela existência de uma floresta incomum e antiga, que dentro de sua história fez surgir formas, cores, cheiros e sabores únicos, inexistentes em qualquer outro lugar do planeta. Somos privilegiados por viver numa região rica em vida, rica em águas e rica em fertilidade.
Riqueza essa, porém, comprometida pelas mudanças feitas pelo ser humano. Ao longo do século XX, fomos capazes de derrubar quase todos os pinhais do Paraná. E, hoje, o que resta? Menos de 1% da Floresta com Araucária! O que podemos fazer a respeito? Por acreditar que conhecer é o primeiro passo para o cuidado e respeito ao ambiente natural, vamos falar um pouco da história por trás dessa mata, de sua natureza domada e de sua importância econômica e ambiental. Falar do fascínio que causa, e que faz brotar, o pior e o melhor do ser humano. Neste capítulo convidamos você, leitor, a refletir sobre isso.
A Floresta com Araucária representa uma parte única do bioma Mata Atlântica, especialmente no sul do país. Nessas bandas, onde os pinheiros despontam majestosos no dossel da floresta, exibindo o seu domínio primitivo à espera do sol, o ser humano fez morada. O que era “terra de ninguém” (difícil dizer que não era de alguém quando muitos, índios Guaranis, Kaingangs e Xetás, já habitavam a região) virou terra de muitos alguéns, virou terra (a)batida. A floresta que resta, esvaziada de bichos, está um tanto calada.
A história aqui contada tem muitos personagens e muitas sensações. Tem tristezas e lamentos, ambições e conquistas, exploração e desenvolvimento. Mas tem também devoção, muito trabalho interessante, contemplação e fascínio.
Começamos com uma descrição bastante antiga sobre a Mata Atlântica. A descrição do famoso naturalista Charles Darwin:

“O dia todo foi um deleite. No entanto, deleite é um termo fraco para expressar os sentimentos de um naturalista que, pela primeira vez, perambula sozinho por uma floresta brasileira”.
“É fácil especificar os objetos de admiração nesses cenários grandiosos, mas não é possível oferecer uma ideia adequada das emoções que sentimos, entre maravilhados, surpresos e com sublime devoção, capazes de elevar a mente”.

Charles Darwin, 1832

A história da floresta e sua utilização

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Mas o que é a Mata Atlântica? É o nome dado ao bioma formado por um conjunto de matas e campos que ocorre na planície litorânea e nos planaltos do leste do Brasil, se estendendo do nordeste (estado do Rio Grande do Norte) ao sul (estado do Rio Grande do Sul), entrando cerca de 100 km em sua porção norte e mais de 500 km na sul. Ela já foi a segunda maior e mais importante floresta tropical do Brasil e da América do Sul, com o impressionante tamanho de 1.290.000 km2, sendo um dos locais mais ricos em espécies de plantas e animais do planeta, muitas das quais endêmicas, ou seja, só ocorrem na Mata Atlântica.
Essa floresta exibe as marcas deixadas por uma história repleta de ações que tem o ser humano como ator principal. Os primeiros capítulos dessa narrativa são escritos antes mesmo da chegada dos portugueses no Brasil, num tempo em que caçador-coletores e, posteriormente, povos indígenas caminhavam pelas matas virgens explorando, consumindo e alterando aquilo de maior valor na floresta: a sua biodiversidade. O abate de animais para consumo e as práticas agrícolas itinerantes, supostamente acompanhadas por queimadas, são, historicamente, as primeiras alterações nessa grandiosa e exuberante floresta.
Após a chegada dos portugueses ao Brasil em 1500, o caminhar dessa história vem marcado por sucessivos ciclos econômicos. De início, o extrativismo de essências vegetais e madeiras nobres, como o pau-brasil(1). Adiante, a derrubada da floresta para o plantio de cana-de-açúcar e para a exploração de ouro e diamante em seu interior (séculos XVI a XVIII). Na segunda metade do século XIX, foi a vez do café, que se tornaria o principal produto de exportação do Brasil, tendo como principais produtores os estados de São Paulo e Paraná.

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Desde então, a continuada devastação da Mata Atlântica imprime cicatrizes aparentes, fruto da crescente retirada de madeira de suas florestas e de práticas de monocultura e pecuária bastante agressivas. Sofre ainda a pressão de um enorme contingente populacional (mais de 120 milhões de pessoas) e os impactos de suas ações. Hoje, mais de 92% da paisagem original é tipicamente representada por cidades, indústrias, pasto e agricultura, que cercam retalhos de mata, em geral pequenos e fragilizados.

1 – Estima-se que cerca de 2 milhões de árvores (pau-brasil) foram mandadas para a Europa. Sua madeira era usada na construção de móveis e seu extrato era usado na produção de corante vermelho.

Nas páginas dessa história está o território de São Mateus do Sul. Até a metade do século XIX, o município era praticamente todo coberto pela Floresta com Araucária, um dos principais tipos vegetacionais que compõem a Mata Atlântica. Nessas terras já viveram povos indígenas, já caminharam sertanistas, na busca por riquezas, e bandeirantes, para demarcação do território no período colonial. Em sua então verdejante mata, já passaram fileiras ordenadas de tropeiros no transporte de mercadorias para o estado de São Paulo, antecedendo o desenvolvimento que chegaria a vapor, em navegação no rio Iguaçu. Naquele momento, São Mateus do Sul se transformava no mais importante porto e centro comercial da região. Desenvolvido por uma vigorosa colonização europeia, o município abriu assim caminho para o desenvolvimento.
Com a chegada dos imigrantes europeus e o loteamento das terras, também vieram novas formas de uso do solo. A agricultura como feita pelas famílias de colonos estabelecidas em meio à Floresta com Araucária foi a principal base da economia, assim como o uso de recursos naturais, como o mate e a madeira. O corte de árvores e o seu comércio pelas serrarias permitiu o enriquecimento rápido do município e do Paraná. O extrativismo iniciado pelas imbuias, cedros, cambarás e canelas alcançou intensamente nos anos 50 o pinheiro-do-paraná (Araucaria angustifolia), que se tornou um valioso produto de exportação. A partir de 1960, com o fim dos estoques de madeira, as serrarias fecharam ou tiveram que iniciar o trabalho com árvores não brasileiras, como o pinus e o eucalipto.
A maneira como os agricultores de São Mateus do Sul abriram a mata e utilizaram o solo para plantar permitiu a formação de fragmentos de floresta espalhados por todo o município, especialmente nos vales dos rios.

FRUTIFICANDO OS SABERES
Você já trabalhou o mapa da sua comunidade/bairro? Que tal construí-lo em grupo? Cada participante deve fazer um desenho de sua casa, da vizinhança, dos comércios e de todas as características ambientais que puder notar em seu entorno. Observar, por exemplo, o caminho de sua casa até a escola, de sua casa até a casa de seus tios, avós, amigos. No final, todos devem juntar esse quebra cabeça para visualizarem a comunidade e todos os elementos que fazem parte dela.

mapa

Embora esses remanescentes florestais sejam formados por uma vegetação apenas parcialmente semelhante à natural, eles ainda abrigam animais silvestres, e em última instância, conservam uma reserva genética da variedade de sementes de plantas, incluindo árvores como a erva-mate, o pinheiro, a canela, entre muitas outras. Os maiores remanescentes florestais de São Mateus do Sul estão próximos às localidades Palmital e Passo do Meio, a oeste do município. Ainda hoje, juntamente com a existência de grandes árvores, essa região convive com a retirada de lenha para consumo doméstico, de erva-mate e a criação de animais nas matas.
Este uso da floresta representa um modelo agrícola bastante peculiar: o faxinal. Tal sistema de uso do solo e da floresta contribui para manutenção das matas – ainda que de forma parcial e ainda não bem compreendida – e respeita práticas tradicionais e acordadas pelos faxinalenses. Há duas dessas áreas em São Mateus do Sul reconhecidas pelo Instituto Ambiental do Paraná: o Faxinal Saudade Santa Anita e o Faxinal Emboque. Outras comunidades ainda não foram oficialmente reconhecidas, mas têm a mesma importância cultural e ambiental.

SOBRE OS FAXINAIS
O Faxinal é definido no Decreto nº 3446 de 14/08/1997 como um sistema de produção camponês tradicional, característico da região Centro-Sul do Paraná. Tem como traço marcante o uso coletivo da terra para produção animal e a conservação ambiental, integrando: a produção animal coletiva; a produção agrícola, de subsistência para consumo e comercialização; e o extrativismo florestal de baixo impacto, como o por meio do manejo de erva-mate, araucária e outras espécies nativas.

Floresta com Araucária, a mata dos pinhais

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A Mata Atlântica é formada por vários tipos de florestas e, como vimos acima, entre elas há a Floresta com Araucária ou ‘mata dos pinhais’ – também chamada pelos estudiosos de Floresta Ombrófila Mista. A Floresta com Araucária abrange as áreas onde naturalmente crescem os pinheiros (Araucaria angustifolia), acima de 500 metros do nível do mar. O clima dessas matas é tipicamente frio e úmido, favorecendo o crescimento dos pinheiros-do-paraná e de outras espécies de árvores importantes, como a imbuia e a erva-mate.

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A presença dos pinheiros confere ao Paraná algo que nunca passa despercebido. Este fenômeno já havia sido detectado pelos naturalistas viajantes do século XIX, como o francês Auguste de Saint-Hilaire e o inglês Thomas P. Bigg-Wither, que atravessaram o estado, exaltando cenas e paisagens que os impressionaram:

“Uma mata sombria, formada quase que inteiramente de Araucária, se eleva sobre a margem esquerda do rio, e a pouca distância das casas tinha sido feita uma plantação de milho. Deixaram algumas araucárias no meio dessa, que se exibiam isoladamente em toda a sua majestade e cujo os tons sombrios contrastavam com o verde alegre do milharal. Essa paisagem, tão pitoresca, tinha, entretanto, um ar um pouco austero, que se deveria principalmente ao porte das Araucárias e à cor sombria de sua folhagem” (Saint-Hilaire, 1820).
“Esses pinheiros atingem até 130 e 140 pés [n.t.: 39-42 m], tendo seu tronco ereto e desgalhado até poucos metros de sua copa, onde uma grande quantidade de ramos longos parte horizontalmente do tronco, com a forma de um guarda-chuva de cerca de 60 pés [n.t.: 18 m] de diâmetro, o qual é pouso favorito, especialmente no período das frutas, de inúmeros bandos de papagaios, gralhas brasileiras e macacos”
(Bigg-Wither, 1870).

Típica paisagem da Floresta com Araucária. Foto: Janael Ricetti
Típica paisagem da Floresta com Araucária. Foto: Janael Ricetti

As características únicas dessa floresta também chamaram a atenção do nosso imperador Dom Pedro II durante sua visita ao Paraná, em 1880. Assim ele destaca em seu diário:

“Vinte e um de maio – Almoço as 7. Partida as 8. Araucária, erva-mate. Colhi ramos. Capurri com boa ponte. Campinho. Volta grande com belos capões e grande abundância de araucárias cujos os ramos enfileirando-se em planos diferentes, sobretudo por causa da inclinação do terreno, formam degraus de imensa escada” (Dom Pedro II, 1880).

A araucária, também chamada de pinheiro-do-paraná e pinheiro-brasileiro, é uma espécie que existe há mais de 200 milhões de anos. Pode viver até 700 anos, atingir 50 metros de altura e ter 2,5 metros de diâmetro. Sua presença nas paisagens do sul do Brasil é marcante, mas a floresta é constituída por um conjunto de centenas de espécies além do pinheiro. As pesquisas sobre essa vegetação estão lentamente deixando de ser raras, mas ainda estão no início, e já apontam que ela é composta por mais de 350 espécies de árvores. Os animais que ali habitam também impressionam por seus números: são mais de 120 espécies de anfíbios, 80 de répteis, cerca de 400 de aves e 120 de mamíferos.

Vista, de baixo para cima, de um pinheiro-do-paraná. Foto: Carla Canestraro.
Vista, de baixo para cima, de um pinheiro-do-paraná. Foto: Carla Canestraro.
Macaco bugio com filhote. Foto: Fabiana Rocha-Mendes
Macaco bugio com filhote. Foto: Fabiana Rocha-Mendes
Lagarto papa vento. Foto: Arthur Bispo
Lagarto papa vento. Foto: Arthur Bispo
Cotia comendo pinhão. Foto: Ana Carolina Franken
Cotia comendo pinhão. Foto: Ana Carolina Franken
Cachorro do mato. Foto: Fabiana Rocha-Mendes
Cachorro do mato. Foto: Fabiana Rocha-Mendes

Valor ecológico e econômico da Floresta com Araucária

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Para muitos, as palavras “mato”, “floresta” e “selva” estão associadas à ideia de perigo, medo e pobreza, enquanto a terra desmatada, arada, semeada é erroneamente vista como a chegada de progresso. Esses pensamentos, infelizmente, persistem no Brasil. Se a isto adicionarmos a falta de conhecimento sobre a geografia, história e ecologia da nossa terra, entendemos o porquê desta percepção equivocada sobre a natureza que nos cerca.
No ambiente natural, incluindo as florestas tropicais, as consequências da perda de vegetação são grandes e comprometem tanto a biodiversidade como a sociedade humana. Problemas relevantes devem ser considerados no contexto, como o empobrecimento do solo, a diminuição na qualidade e disponibilidade de água, ou mesmo a ocupação de áreas impróprias para agricultura e pecuária e/ou protegidas por lei.

FRUTIFICANDO OS SABERES
Promova um debate sobre as leis ambientais. Quais são evidentes em sua comunidade e qual a importância dessas leis? Quais são as soluções para os possíveis conflitos existentes? Debata como são criadas as leis e como os cidadãos podem influenciar nesse processo. Simule uma assembleia e promova discussões que façam com que as pessoas desenvolvam autoconfiança e vontade de participar ativamente na sociedade.

No momento atual é preciso entender de que forma estamos ligados às florestas, seja pela necessidade dos seus serviços ou por admiração, para que possamos melhorar nosso estilo de vida sem que seja necessário esgotar os recursos florestais. Isso porque, após séculos de exploração da terra de maneira errada, chegamos a um momento em que o que parecia infinito se tornou escasso.
Calcular o valor de uma floresta é uma tarefa complexa, porém, muito importante para que a sociedade dê atenção à sua importância. Inúmeros valores podem ser atribuídos, dependendo não só do preço de produtos no mercado de exportações, mas também de como as pessoas podem entender e identificar diferentes formas de adequação da economia à manutenção das florestas.
Nesse aspecto, se destacam alguns dos materiais e serviços florestais que sustentam nossa economia e nossas cidades, por exemplo, prover matérias-primas como madeira, combustíveis e fibras; prover alimento, por meio de pesca, caça, coleta de frutos, folhas e sementes; ser a base para produtos farmacêuticos e para produção de remédios; controlar a erosão do solo, enchentes, sedimentação e poluição; armazenar água em bacias hidrográficas, reservatórios e aquíferos; controlar o clima, amenizando o efeito de tempestades, enchentes e secas; servir como filtro de poluentes da água e do ar; manter o solo fértil; fazer o controle biológico, diminuindo a proliferação de pragas agrícolas; permitir a recreação, o ecoturismo e lazer; reter valores culturais, servindo de inspiração estética, na engenharia, arquitetura, arte e ciência.

FRUTIFICANDO OS SABERES
Pesquise quais são os rios próximos à sua comunidade e no seu município. Promova trabalhos sobre a importância dos rios e da mata ciliar, aproveite o assunto para abordar questões sobre o ciclo da água e sua composição. Você também pode fazer experiências para trabalhar questões de medidas, frações, etc.
Adaptar atividades de acordo com os conteúdos que devem ser trabalhados em um programa de estudos (currículo escolar, projeto pedagógico etc.) é uma maneira de inserir as questões ambientais de forma prazerosa e conectá-las com a realidade das pessoas. Discuta na escola e em outros espaços, por exemplo, a importância dos rios e quais os ecossistemas presentes nas proximidades. Peça para que os participantes descubram qual o papel das plantas e animais presentes nos diferentes ambientes. Você pode trabalhar com questões como a fotossíntese, produção de CO2 e de O2.
Questões complementares sobre a questão hídrica: Como as pessoas tinham acesso à água antigamente? Como faziam para ter suas rotinas diárias, tomar banho, cozinhar, lavar roupa, entre outros? Incentive o trabalho por meio de comparações com os hábitos atuais.
Pergunte aos participantes se eles já pararam para pensar como chega a água em suas casas. Proponha que façam o caminho inverso para descobrir de onde ela vem e descubram para onde ela vai ao cair no ralo.
Converse sobre quais são as principais substâncias que contaminam as águas e de que forma nossas ações diárias contribuem para essa contaminação. Faça pequenos experimentos a fim de trabalhar a dificuldade do ambiente em absorver algumas substâncias, como o óleo (misture óleo e água em um pequeno pote transparente, por exemplo).

Como já citado anteriormente, o crescimento econômico de várias cidades paranaenses, incluindo São Mateus do Sul, se deve ao uso da floresta. A venda da madeira, a coleta da erva-mate e o plantio de lavouras em sua terra fértil são apenas alguns dos exemplos de como a floresta, desde o início do século XX até hoje, proporciona riqueza e desenvolvimento para a região. Mas poderíamos ser muito mais prósperos se tivéssemos utilizado esse ecossistema com maior cuidado.

FRUTIFICANDO OS SABERES
Uma das formas de sensibilizarmos a comunidade sobre alterações no meio, como as mudanças climáticas, pode ser por meio da percepção ambiental, isto é, reconhecimentos ou diagnósticos sobre o ambiente que os cerca. Em outras palavras: como podemos falar sobre mudanças na temperatura ao longo do dia, se muitas pessoas passam grande parte do tempo com o ar condicionado ligado em sala?
Uma proposta é esta: possibilitar que pessoas percebam o ambiente que os cerca por meio de sentidos que geralmente não prestamos muita atenção, como o cheiro, som e tato. Para isso, leve um grupo de interessados para uma caminhada. A ideia é que, com base nessa experiência, eles façam um mapa com informações de interesse, como por exemplo:
1- Quais ambientes são mais quentes e quais são mais frios?
2- É possível ouvir barulho de sapos, grilos, pássaros ou outros animais? Onde esses barulhos são mais fortes ou frequentes?
3- Alguma flor tem um cheiro forte ou marcante? Onde está?
4- No percurso, há árvores frutíferas? Quais e onde estão?
5- Existem ambientes mais claros e escuros?

Quanto vale?

Passado mais de um século de história de extração, caça, desmatamento e fragmentação, se sentindo intensa e erroneamente explorada, a Floresta com Araucária – representação sindical das araucárias, imbuias, ervas mates, cotias, bugios, gralhas-azuis, onças – resolveu contratar um bom marketeiro, que pudesse representá-la nas novas negociações.
Quando então vieram os interessados, se depararam com uma figura em bom terno e ágil retórica.
– Ótima escolha, meus caros. Esta é uma excelente área. Além de possuir árvores frondosas, que podem viver até 700 anos e alcançar até 50 metros de altura, conta com mais de 720 espécies de fauna, incluindo anfíbios, répteis, aves e mamíferos.
– Esses detalhes não importam. Vamos derrubar a mata e construir estrada. É pra pagar barato.
– O metro quadrado valorizou, senhores. E estamos falando de alto luxo e conforto. Vejam, os benefícios são muitos: matéria-prima; alimentos; base para produtos farmacêuticos, controle da erosão, das enchentes e da poluição; armazenamento de água; manutenção de solo fértil; controle biológico; garantia de recreação, turismo e inspiração estética.
– Temos o costume de pagar pela madeira e pelo chão só, o pacote básico. Isso tudo que você falou não temos como bancar.
– Sem contar a raridade desse ambiente. Nos dias de hoje há pouquíssimas matas. E o pacote é fechado, todos os itens são inclusos.
– E o desconto?
– Infelizmente, não. A promoção foi só até o século passado. A instabilidade do mercado climático e a baixa oferta encareceram o produto.
Chateados, os empresários deixaram o vendedor, reclamando que Floresta com araucária era para gente muito rica, coisa só para vitrine.

Ameaças à floresta e cuidados necessários para a sua conservação

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Considerando as florestas contínuas e as florestas das regiões dos campos naturais paranaenses, quase 60% do território do estado eram cobertos pela Floresta com Araucária (11.589.138 hectares). A ocupação dos planaltos paranaenses e consequentemente a devastação da floresta se iniciaram no final do século XIX. Depois da crise do ciclo da erva-mate, por volta da década de 1930, a madeira do pinho manteve a sustentação da economia do estado, declinando após o fim da Segunda Guerra Mundial. A partir daí, houve o fortalecimento no plantio do café, sendo que nas próximas décadas, com o fim do ciclo cafeeiro, houve a adoção da cultura de soja, fazendo com que as áreas florestais restantes dessem lugar às lavouras, pastos e plantios de pinus.
A Floresta com Araucária é um dos ecossistemas brasileiros com maior índice de degradação, com sua extinção justificada pelo desenvolvimento agrícola, pecuário, urbano e de extração de recursos naturais. Até para os pesquisadores foi chocante descobrir, por meio de estudos realizados há pouco mais de 15 anos, que o que sobrou dessa floresta no Paraná não ultrapassa 1% de sua área original (66.109 hectares). Pior: a qualidade da maioria das matas restantes é lamentável. Muitas delas já não são suficientes para manter animais de médio e grande porte e sequer representam uma ínfima parte das árvores e arbustos esperados para uma floresta madura.
Hoje, muitos bichos são obrigados a sobreviver nos fragmentos florestais, onde sofrem com a falta de alimentos e são mortos por caçadores com maior facilidade. Espécies como a onça pintada, o gato do mato, o macaco bugio, a anta, a lontra, a paca, o porco queixada, a harpia, a jacutinga, o papagaio-do-peito-roxo, entre outros, não existem mais ou estão desaparecendo da mata. O cenário pode ser ainda pior. Estudiosos já sabem que a simples exploração de plantas ornamentais e o corte, ainda que seletivo de madeiras, podem transformar ambientes adequados em áreas desfavoráveis aos animais. E como eles ficam diante desse impacto? Bem mal. Animais dependentes da estrutura florestal para sua locomoção, como os macacos, as cuícas e a maioria das aves, acabam morrendo. Sofrem também as espécies que utilizam ocos, cascas de árvores e outras estruturas vegetais (p.ex., bromélias) como abrigo, caso de anfíbios, cobras, aves e muitos mamíferos.

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FRUTIFICANDO OS SABERES
Em sua atividade de ensino, pergunte aos participantes quais são os animais que eles costumam ver próximo às suas casas ou aqueles existentes na região. Mesmo sendo difícil de visualizá-los, peça para que eles observem, escutem ou pesquisem sobre esses animais e tragam esses registros. Discuta sobre o que eles puderam observar, se conseguiram registrar alguma imagem, som ou história desses animais. Converse sobre a importância da fauna, os hábitos, alimentação e distribuição dessas espécies.

O que dizer então da remoção total da floresta? Além do impacto direto sobre os animais, essa ação pode expor a fauna a outras formas de pressão. Quando isso acontece, os animais que naturalmente necessitam de grandes áreas para sobreviver, como o cachorro do mato, gatos do mato, onça parda, veados, são forçados a buscar novas áreas e podem ficar expostos aos caçadores ou serem atropelados durante seus deslocamentos. Estima-se que quase 500 milhões de animais são atropelados no Brasil todos os anos!
Após a retirada da floresta e o abandono do terreno, naturalmente ocorre o crescimento de uma nova vegetação, chamada de floresta secundária. No início desse processo, a floresta secundária é chamada de estágio inicial ou capoeira. Com o tempo, em geral mais de 30 anos sem ser alterada, a floresta passa para o estágio médio. Assim, as florestas secundárias ainda mais velhas podem chegar ao estágio avançado, abrigando árvores de grande porte e com copas amplas que possam formar um extrato superior, criando um bosque sombreado dentro da floresta. Esse sombreamento é fundamental para algumas espécies de árvores e plantas menores se desenvolverem, o que poderá levar a um estágio chamado de clímax.
Levantamentos realizados com imagens de satélites mostram que a maior parte das florestas do Paraná são secundárias. Esse é o tipo de floresta que ocorre em São Mateus do Sul, e a sua manutenção é a única maneira concreta de assegurar a recuperação dos nossos pinheirais.

Araucária solitária na paisagem de monocultura. Foto: Carla Canestraro
Araucária solitária na paisagem de monocultura. Foto: Carla Canestraro

Falando um pouco de conservação e restauração florestal

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Embora a “nova floresta” de São Mateus do Sul não possua as mesmas características da floresta original, ela merece ser protegida por seu papel essencial na manutenção da vida silvestre. Se tratando de uma mata que já representou um dos mais importantes e complexos conjuntos de animais e plantas do Paraná, sobram motivos para que os cuidados na sua conservação sejam de fato efetivos.
São questões como essas que incentivam alguns cidadãos são-mateuenses a fazer a diferença. Ainda não existem unidades de conservação para a proteção de áreas naturais em São Mateus do Sul, por isso a iniciativa da população para recuperar e proteger matas, nascentes e rios é muito importante e cada vez mais comum. Já são muitas as notícias em jornais sobre a dedicação de famílias para a recuperação do solo e de áreas verdes em suas propriedades. As discussões nas salas de aula também trouxeram a mobilização para as mãos de jovens e professores das escolas, difundindo a vontade de trabalhar para manter a qualidade ambiental, tão importante para a economia e a vida dos moradores do município.
A responsabilidade ambiental, que era rara e impensável há algumas décadas, hoje já é vista com orgulho e aceitação pela sociedade. Grupos de voluntários têm se organizado para limpar os rios e recuperar nascentes, por meio da iniciativa de clubes e entidades civis, envolvendo dezenas de jovens que regeneram e mantêm nascentes d’água vivas e protegidas.
As datas comemorativas com temas ambientais também se tornaram motivo para realizar eventos ecológicos, como o que ocorre no Dia Mundial do Rio (24 de novembro), data em que se realizam atividades de conscientização para a destinação correta do lixo e para a proteção das espécies de peixes nativas da região, além de um mutirão de limpeza do rio Iguaçu. O Dia Mundial do Meio Ambiente (5 de junho) também é motivo para a realização de eventos com cunho ecológico na cidade, replicando cada vez mais a ideia de que qualidade de vida, economia e saúde dependem da qualidade ambiental.
Dessa forma, inúmeros projetos idealizados pela população estão ganhando espaço. As iniciativas populares e o esforço para preservar as águas do município já apresentam enorme êxito e repercussão na mídia, com destaque ao empenhado trabalho de retirada de toneladas de lixo de dentro dos rios Taquaral e Canoas.
Projetos ambientais da gestão municipal também estão em andamento com a implantação do Plano Diretor de Arborização Urbana, o que gerou visibilidade nacional para o município. A discussão da cultura da erva-mate e o seu vínculo com a floresta também ganharam grande espaço no município, revelando que a consciência ambiental já vem alcançando as instituições públicas. Isso torna claro que aplicações de recursos em meio ambiente hoje irão gerar economia e ganhos maiores no futuro.

Refletindo sobre os saberes
As iniciativas aqui citadas são apenas algumas das que conhecemos durante a realização do Morada dos Saberes. Agradecemos todos os integrantes dessas ações por compartilharem, por meio de oficinas e debates, seus conhecimentos e experiências.
E você, conhece mais exemplos interessantes para compartilhar?

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