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Capítulo 3: ESCUTANDO OS SABERES

Hilda Jocele Digner Dalcomuni e Taiana Hertzog
Histórias pessoais baseadas nos relatos de Pedro Cavalheiro, Elmary de Oliveira Tratch, Odete Maciel Ferreira, Isone Madzala Cavalheiro, Florisbela Ferreira Lima, Aristeu Santos Lima, Onofre Antonio Glinski, Maria Laura Glinski Ribeiro e Josefa Frankowski Brudnicki

As histórias contadas pelos moradores antigos da região de São Mateus do Sul nos motivam e nos inspiram por meio de seus valores e experiências de vida. Este capítulo apresenta seis histórias de personagens reais que nos contam um pouco sobre a riqueza desse município. Conhecer essas histórias e repassá-las para as novas gerações é uma forma de manter essa cultura sempre viva.

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Seu Pedro

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Em São Mateus do Sul existe um lugar que, por muito tempo, foi chamado de “São Mateus velho”. Esse lugar fica próximo à praça do Iguaçu, indo em direção à Vila Amaral. Na década de 50, se instalou por ali o açougue do Sr. Manoel, pai de um menino chamado Pedro. Como todos os garotos, Pedro gostava muito de brincar e vivia indo até o antigo porto ver os vapores que chegavam e saiam dali. Isso encantava o menino, que prestava muita atenção nos “marinheiros” que faziam o trabalho de carregar e descarregar o vapor com erva-mate, madeira e várias outras mercadorias. Um pouco mais adiante de onde atracavam os barcos, ainda às margens do rio Iguaçu, na foz do rio Taquaral, existia uma usina que extraia o óleo de xisto. Era a usina do Perna de pau. No alto do morro que ficava ao lado da usina, existiam muitas árvores com cipós grandes que as crianças, inclusive Pedro, usavam para se balançar no ar. A brincadeira era muito arriscada, mas elas desafiavam o perigo sem medo de cair lá de cima.
Foram, com certeza, tempos saudosos. O menino cresceu e se tornou o Sr. Pedro. Foi morar e trabalhar no Lajeado, junto de sua família, onde vive há mais ou menos 46 anos e é aposentado como policial militar. Seu Pedro nos contou muitas coisas sobre o lugar onde vive, as mudanças, as melhorias das estradas, o aumento da população local, as escolas que foram mudando com o passar do tempo, o trabalho local com a erva-mate e muito mais.
Num determinado período de sua vida, lá no Lajeado, Seu Pedro foi professor alfabetizador de adultos, voluntário num antigo programa do governo, chamado MOBRAL. Eram 32 alunos, todos homens. Conta Seu Pedro que existiam algumas dificuldades, como o cansaço dos alunos no final do dia, mas também há o orgulho em ter seu trabalho reconhecido por muitos dos que aprenderam a ler e escrever no programa.
Nosso personagem sempre conta para muitas pessoas sobre certos fatos que aconteciam em dias de aula: em um deles, um dos alunos, que já tinha certa idade, dizia:
– Quando Seu Pedro Poli acende o “miquinho” – lâmpada a gás, chamada de liquinho –, a gente já não enxerga mais nada!
Outro acontecimento narrado foi sobre a hora de soletrar as sílabas das palavras que eram apresentadas ao lado da figura correspondente. O professor pediu ao aluno:
– Soletre as letras, diga as sílabas e forme a palavra que mostra a figura.
O aluno emendava:
– P A faz PA, T O faz TO …. MARRECO!
A distração do colega levava a turma ao riso e divertia os momentos que passavam juntos.

FRUTIFICANDO OS SABERES
Estimule os mais jovens a conversarem com os seus pais, tios e avós para saberem quais eram as brincadeiras realizadas antigamente. Promova essa troca de experiências. Juntos, vocês podem replicar algumas brincadeiras de acordo com os espaços que tiverem disponíveis. As brincadeiras estimulam a criatividade, o desenvolvimento cognitivo, o respeito às regras e a interação com as outras crianças.

O carroção de erva-mate e as duas irmãs

Dona Emma, 79 anos, conta que ela e sua irmã mais velha vinham da Estiva até a cidade de São Mateus do Sul para entregar o carregamento de erva-mate nos depósitos da Leão Júnior. Destaca, ainda com orgulho, que viajava em cima dos sacos de erva-mate. Nessa época, dona Emma tinha 9 anos e a irmã, 18. Um dos empregados de seu pai conduzia o carroção, mas quem fazia o acerto financeiro, pagava as contas e fazia as compras era sua irmã. As duas resolviam tudo que o pai recomendava e, se precisassem, pernoitavam no hotel da Dona Aurora, que já conhecia a família e recebia as jovens hóspedes.
Nas ocasiões que vinham para a cidade, as duas irmãs sempre iam até à igreja para rezar e, sempre que era possível, participavam das festas religiosas. Dona Emma lembra bem da festa em louvor à Nossa Senhora dos Navegantes, onde havia procissão de vapores, todos enfeitados para a ocasião. Certa vez, ao entrarem na igreja, dona Emma começou a tropeçar e a fazer barulho com seus sapatos recém-comprados. Sua irmã lançou um olhar reprovador, enquanto o padre que presenciava tudo sorriu e, gentilmente, disse:
– É apenas uma menina estreando seus sapatos novos!
Dona Emma lembra com saudades desse fato.

FRUTIFICANDO OS SABERES
Que tal elaborar coletivamente uma pesquisa sobre a erva-mate, elemento tão presente na cultura da região? Façam uma busca pelo histórico, pelas etapas do processo de produção e do beneficiamento da erva, até chegar à comercialização. Vocês também podem pesquisar diferentes receitas feitas com a erva-mate e, quem sabe, organizar uma degustação com todos os interessados.

O mate doce no “resguardo”

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Antigamente, as mulheres tinham costumes diferentes dos de hoje, inclusive quando tinham seus filhos. O parto geralmente ocorria em casa, feito por uma parteira, principalmente na zona rural, pois era difícil levar a mulher até um médico ou trazê-lo até a casa da gestante. Quem nos explica esse hábito é Dona Odete, moradora há 70 anos no Lajeadinho.
Dona Odete se casou aos 23 anos com seu Romeu. Tiveram seis filhos, todos de parto natural e em casa. A parteira que atendia as mulheres do lugar se chamava Dona Altiva. Após o bebê nascer, a mulher ficava em repouso por 40 dias, se o bebê fosse menina, ou 41 dias, se fosse menino. Esse período era conhecido como “resguardo ou dieta”.
No resguardo a mulher ficava restrita a algumas atividades físicas, poucos alimentos e certos costumes locais, como os relatados a seguir. Algumas mulheres não podiam varrer a casa, lavar roupa, fazer o pão caseiro ou serviços domésticos mais pesados. Geralmente outra companheira auxiliava a parturiente nesses dias, podendo ser sua mãe, sogra ou amiga de confiança.
A alimentação da nova mamãe tinha que ser leve e nutritiva. Era costume servir para ela canja de galinha, biscoitos e chá. A mãe ficava quatro dias no quarto escuro e o bebê, sete dias. O bebê não recebia visitas no sétimo dia, no décimo quarto e no vigésimo primeiro. Ele era alimentado com leite materno e alguns chazinhos de ervas medicinais conhecidas na região. Também era costume banhar o bebê com chá de erva-doce para evitar brotoeja.
Em terra de erva-mate e chimarrão, a mãe só podia tomar um mate diferenciado. Era o chamado “mate doce”. Seus ingredientes eram: erva-mate torrada e grossa, açúcar, casca de laranja e hortelã. O toque final ficava por conta das brasas em cima do açúcar, que deixam um aroma perfumado no ambiente. Segundo Dona Odete, o chamado “mate grande” era pra ser tomado no final da “dieta” com ingredientes como abutu, pixilim, noz-moscada, erva-doce e erva-cidreira, que serviriam, segundo a medicina popular, para limpar o útero da mãe. Em alguns lugares esses ingredientes ainda eram tomados com pinga.
A superstição era uma crença muito respeitada no cuidado com a mulher que acabou de ter um bebê. Durante dez dias, a mãe não podia sair de casa para não tomar vento, pois poderia ter uma dor de cabeça que só terminaria em outra dieta, e também não podia lavar a cabeça durante esse período. Ainda era impedida de comer arroz e massas frescas para não ficar “barriguda”.
Não comer feijão, chocolate e alimentos escuros para não dar cólica no bebê aumentava a lista de costumes, segundo Dona Odete. Para o bebê dormir, bastava dar chá de alface como calmante. Era indicado, ainda, virar a roupa do bebê pelo avesso para que ele não trocasse o dia pela noite.
Mesmo apresentando algumas variações entre as localidades, essas eram algumas tradições do nosso município. Muitas delas ainda são praticadas atualmente, como veremos no capítulo a seguir. Não deixe de ler!

FRUTIFICANDO OS SABERES
– Pesquise com seu grupo de estudos sobre a reprodução de diferentes espécies de animais. Busque as características da gestação, de alimentação e dos cuidados que esses filhotes precisam para se desenvolver.
– Monte uma árvore genealógica da sua família e descubra a sua origem e a história de seus antepassados. Compartilhe tudo que descobriu com os demais colegas e montem uma exposição. Quem sabe vocês não descobrem alguns parentes em comum?

A cruz de cedro

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Os faxinais, como já comentado neste livro, são extensões de terra onde não existem cercas. Nesse ambiente rural, os animais são criados soltos em porções da floresta. No entanto, esses espaços foram deixando de existir com a fragmentação das propriedades. Em alguns locais, restaram apenas os nomes dos lugares, como Faxinal dos Ilhéus, Faxinal dos Elias e Faxinal dos Francos. Esses lugares ficaram conhecidos pelos sobrenomes de famílias que moravam naquele lugar ou tiveram algum vínculo com os moradores locais.
Em Faxinal dos Ilhéus conversamos com seu Tonico, um senhor muito simpático, de 93 anos de idade, que nos contou um pouco da história dali. Uma de suas histórias dizia respeito à passagem do monge São João Maria pelo lugar no final do século XIX. Segundo a tradição oral, o monge, muito considerado na região, andava peregrinando por vários lugares. Tinha o costume de pernoitar ao ar livre, geralmente perto de uma nascente ou “olho d’água”. Fazia benzimentos e orações, receitava remédios naturais e dava conselhos. Um fato interessante sobre a passagem do monge era a fixação de uma cruz de cedro no lugar onde ele ficava. Algum tempo depois a madeira da cruz florescia e se transformava numa árvore de cedro. Na comunidade de Faxinal dos Ilhéus existe uma capelinha que guarda uma imagem do monge. Atrás dela existe uma árvore de cedro.
Muitas outras localidades também relatam as passagens do monge São João Maria. No próximo capítulo você poderá conferir alguns causos contados para o Morada dos Saberes.

Uma árvore chamada cambará

Na localidade de Cambará, interior do município, fomos recebidos por um querido casal de antigos moradores. Entre uma conversa e outra, perguntamos a origem do nome do lugar. Seu Aristeu nos respondeu que era por causa de uma árvore chamada Cambará, muito abundante nas redondezas. Esse fato nos levou a procurar saber mais sobre a vegetação do entorno.
As florestas guardam seus segredos e suas sabedorias. A Floresta com Araucária não é diferente. E as pessoas aprenderam bastante com essa mata, muitos utilizando os recursos para sua sobrevivência, como a madeira, o alimento e até mesmo os remédios.
É comum nessa região a medicina popular, que usa remédios feitos com cascas de árvores, flores, frutos, folhas e raízes. Mesmo com a diminuição das florestas, ouvimos algumas histórias que utilizam desses recursos. Vamos conhecer algumas receitas?
Sobre o sabugueiro, por exemplo, Dona Belinha nos disse que muitas pessoas usavam o chá das folhas para o sarampo. A casca da “Quina” ou “pau amargo” servia para dor de estômago e a do “pau de andrade” para hemorroidas. Já para as dores causadas pela “cãibra do sangue” (cólicas intestinais) se consumia o chá da casca de jabuticabeira. Vale dizer que o uso de tais remédios caseiros oferecidos pela floresta ainda permanece em nosso município, principalmente no meio rural.

O dom do “venzimento”

Casa simpática com pátio cheio de plantas de cheiro forte. Se via logo que se tratavam de plantas medicinais. Varanda com bancos de madeira de tamanhos diferentes convidando para um chimarrão. Assim foi que conhecemos a casa da Dona Josefa, depois de um rápido primeiro encontro embaixo da frondosa árvore da igreja de Dois Irmãos. Dona Josefa parecia saber que, apesar da linda vista próximo à igreja, aquele não era o local mais confortável para dividir suas intrigantes histórias.
Foi apenas aconchegada em sua varanda e com um ótimo chimarrão na roda que Dona Josefa começou a falar de como se assumiu benzedeira:
– Eu não pedi isso para mim. Foi Deus que deu! Mas chegou um momento que pedi uma prova para Ele. E Ele me deu. Faço até hoje.
Moça nova, apenas 36 anos, mas com um rosto que transparece muita experiência e sintonia com os “venzimentos”, como diz. Mãe de uma menina e um menino, que assistem suas práticas rotineiras, parece ter cuidado para dizer sobre a importância do seu dom.
Conta que seu pai também fazia benzimentos. E com isso pôde aprender alguma coisa do que sabe. Mas também aprendeu um bom tanto com sua teimosia, ao observar o trabalho dos outros. O restante, diz ter aprendido com a fé do povo.
Bastante conhecida por colocar a “mãe do corpo” no lugar, Dona Josefa explica a forte relação da fé com a cura. Explica que todos os benzimentos possuem uma oração para ser feita. E que é necessária fé nas receitas que passa.
Muitas de suas narrativas você pode conferir neste livro. Mas há uma que traduz um pouco nosso encanto por sua história de vida: aos sete anos de idade, quando pegou “ar”, foi em uma benzedeira. No momento dessa cura, no entanto, todos viram a arruda murchar. A senhora logo disse:
– Vai dar pro bem, ou pro mal.
Sabemos que Dona Josefa deu pro bem.

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