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Capítulo 4: SABERES E VOZES LOCAIS

Manuela D. Silva, Karin Yamashiro, Taiana Hertzog e Leandro A. Pereira

Andando por São Mateus do Sul, escutamos lindas vozes contando histórias, causos, simpatias e lendas. Neste Capítulo, trouxemos um pouco desses saberes locais para compartilhar com todos. Esses interessantes saberes nos motivaram a construir atividades didáticas, pensadas especialmente para dar continuidade a esse registro de saberes tão importantes da região.

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Saberes Caseiros de São Mateus do Sul

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Sabe aquela dica da vovó? E as simpatias que os mais antigos contam? São Mateus do Sul está recheada de saberes que tratam do cuidado do corpo, da casa e do espírito. Vamos conhecer algumas e ver quais praticamos?
Não deixar as camisas viradas do avesso e os chinelos virados ao contrário são ensinamentos dos mais antigos para não atrapalhar a vida. Também não se deve entrar por uma porta e sair por outra quando for visitar alguém, para não levar a sorte da família embora. Mas, quando não gostar muito da visita, basta colocar uma agulha atrás da porta para que ela vá embora.
E quando a pessoa que você está esperando não chega? Dizem para colocar o sapato direito sobre o esquerdo e depois atrás da porta. E aí, é só esperar alguns minutinhos, que logo a pessoa aparecerá. Mas é importante lembrar de tirar um de cima do outro depois!
Ainda sobre o cuidado da família e da casa, os mais antigos contam que o mês de agosto não é um bom mês para fazer mudanças. Sabe por quê? Dizem que as pessoas não se realizam, havendo separação dos familiares.
Além desses costumes mais rotineiros, existem outros para momentos bem específicos. Nos velórios, por exemplo, há cuidados especiais que remetem ao encontro dos entes queridos: a família recebe em sua casa as pessoas interessadas em realizar a vigília, que acontece durante 24 horas. Nesse período, receitas locais, como pães e bolachas, são feitas para alimentar quem está ali velando o corpo. E para ajudar a conservar o corpo? Dizem para colocar uma bacia com água e uma chave dentro, tudo embaixo do caixão.
Depois do velório, no cuidado da casa, se diz importante varrer a moradia, juntar os ciscos e jogar pela porta de saída.
Ainda há um importante recado que circula nas comunidades: caso o morto esteja com piolho, amarre a cabeça com um pano, porque piolho pego de defunto não vai embora!

FRUTIFICANDO OS SABERES
Envolva as famílias numa atividade em que os mais novos perguntem aos seus pais, avós, tios e outros parentes sobre os costumes que eles tinham antigamente em diferentes ocasiões, como o nascimento do bebê, morte, doença, casamentos, entre outros. Quais eram as tradições adotadas nesses momentos? Procure saber quais desses costumes ainda estão presentes no cotidiano da comunidade. Com os dados dessa pesquisa, você pode organizar uma roda de conversa para discutir o que eles descobriram e se há costumes comuns entre as diferentes famílias. Para fechar a atividade, que tal convidar algum morador antigo para contar essas histórias na escola?

E para chamar tempo bom, alguma dica? Ouvimos que mexer em nove formigueiros falando “formiguinha, formigão, faça sol para secar meu colchão!” funciona.
Por outro lado, se limpar os santos de dentro de casa, você chama chuva!
Os santos são também lembrados em outras ocasiões. Se quiser se livrar de um cisco, segure os olhos e repita três vezes: “Santa Luzia passou por aqui com um cavalinho comendo capim, pegue este cisco e leve para longe de mim”.
E, para desengasgar, se chama o São Brás: “São Brás, acuda o rapaz”.
Já quando você perde algum objeto, o que você faz? Já tentou pedir ajuda ao Santo Antônio? Na região de São Mateus do Sul, dizem que, se pedir com muita fé, ele irá mostrar o caminho.

FRUTIFICANDO OS SABERES
Que tal fazer uma pesquisa colaborativa em sua comunidade sobre as tradições religiosas existentes? Procure saber quais são as crenças, símbolos e costumes dessas religiões, como festas e feriados. Inclua, se possível, saberes sobre as práticas religiosas presentes em diferentes partes do Brasil e do mundo. É uma boa maneira de se trabalhar a diversidade em escolas e outros espaços pedagógicos.
Com os distintos materiais, vocês podem montar um painel com as representações, símbolos, crenças e origem de cada religião. Também é possível montar um calendário e discutir o que cada data representa e quais são as tradições desses dias. As comidas servidas também podem ser um bom assunto de estudo.

Refletindo sobre os saberes
A ideia de atividades como essas é conhecer a diversidade das culturas, trabalhar o respeito, a tolerância religiosa e a riqueza das diferentes práticas e crenças existentes em nossa sociedade.

Saberes e Curas

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Você já ouviu falar em “quebrante” ou “mau olhado”? Já procurou ajuda para colocar a “mãe do corpo” em seu lugar? Esses são saberes e crendices trazidos ao projeto pela fala de moradores do interior de São Mateus do Sul, entre eles as benzedeiras, pessoas (geralmente mulheres) que se utilizam da fé e de fórmulas naturais para praticar a cura.
Muitas das receitas contadas ao projeto envolvem o que chamamos de cura natural. A cura natural resgata a relação das pessoas com o meio onde vivem, mas também mostra respeito aos distintos saberes, como a medicina moderna. Ouvimos algumas dessas receitas e a mistura delas com simpatias e com crenças religiosas. Quer relembrar ou conhecer alguns exemplos?

Mãe do Corpo

Em tempos não tão antigos, as mulheres de São Mateus do Sul tinham seus filhos pelas mãos de parteiras. Se comenta que as parteiras, pelas dificuldades encontradas na perpetuação de suas práticas, já não são mais tão comuns na região. As benzedeiras, no entanto, ainda bastante vivas nas comunidades, carregam em sua caminhada os saberes dos cuidados da mãe e da criança.
Foi participando de rodas de chimarrão no interior do município, que o Morada dos Saberes escutou emocionantes e intrigantes histórias sobre os trabalhos das parteiras e benzedeiras.
A crença motriz dessas conversas foi a chamada “mãe do corpo”, nome simbólico dado ao útero. Importante denominação, na opinião das mulheres, em especial por remeter ao equilíbrio do corpo feminino. “Sabe quando vem um incômodo lá dentro, que parece que alguma coisa está fora do lugar? É a mãe do corpo que está fora do lugar. Precisa arrumar isso”. Assim foi a primeira explicação ouvida sobre o tema.
Sendo a “mãe do corpo” o equilíbrio das mulheres, se diz que ela precisa estar no lugar quando há o desejo de engravidar. Se coloca a “mãe do corpo” no lugar com uma massagem no abdome. Assim, é possível engravidar já na semana seguinte da massagem feita para colocá-la no lugar, tamanha a energia ligada à “mãe do corpo”. O relato de mulheres que passaram por essa experiência é comum: após a massagem feita por uma benzedeira ou parteira, a sensação de “frio na barriga” se arrasta por quase um dia. E todos conhecem alguém que engravidou em seguida…
Se comenta, ainda, que a “mãe do corpo” costuma ficar fora do lugar depois dos partos. Portanto, é preciso “arrumar essa condição” para regular os ciclos e aliviar dores e desconfortos. O momento é íntimo, cercado de pensamentos da benzedeira, e vem acompanhado de uma massagem suave feita com óleo. É um bonito símbolo dessa prática da cura natural.
Na prática do “venzimento”, como escutamos, é comum perceber o quanto o natural se combina com outros símbolos importantes da região: a crença em santos protetores (em especial os pedidos feitos para Nossa Senhora da Graça), a utilização das rezas nos momentos de cura e o uso de rosários. Mesclado nesse universo, se encontram as hortas com chás, temperos e outras plantas que “nunca pode faltá”!
Logo após o parto, muitos dos saberes de cuidado com o corpo são colocados em prática. Se acredita que a mulher deva tomar alguns cuidados, respeitando o período de 40 dias conhecido como puerpério, dieta ou quarentena. Vamos conhecer algumas das receitas indicadas?
É comum, em algumas mulheres, dor de cabeça e tremores de frio nesse período. Uma receita muito utilizada, até hoje, para ajudar a combater esses sintomas é o chá de nove misturas: erva-doce, alecrim, artemísia, abutua, pichilin, noz moscada (usar uma pequena porção), erva torrada, açúcar e uma colher de pinga. A sugestão é que “seja tomado na bomba de chimarrão, como um mate”.
Para as mulheres que sofrem com dores nas pernas e nas costas, se indica despejar, da cintura para baixo e nas costas, uma mistura de água e pinga quente, logo após o banho. Em seguida, se enrolar em uma toalha e se deitar imediatamente, deixando para se vestir só depois que o corpo esquentar.
Já para melhorar a cólica do nenê, segundo as conhecedoras são-mateuenses, basta preparar um paninho (bem macio e branco) com um furo, cujo o espaço deixe o umbigo destampado, e encharcá-lo de pinga. Depois, é necessário aquecer o pano no fogo, usando outro para abafar. Quando o pano estiver morninho, colocar em cima da barriga da criança. Logo irá passar a cólica.
É comum alguns recém-nascidos apresentarem o popularmente chamado amarelão (icterícia). Se comenta na região que, para “não pegar”, basta banhar a criança com a flor de picão durante sete dias. Mas, se a criança já estiver com amarelão, indicam banhá-la em uma água preparada com cacos de telha nova.
E para o cobreiro ir embora? Basta escrever a oração da “Ave Maria” em roda, com caneta azul. Em três dias, o cobreiro vai secar.

Remedinhos da vovó

Outras receitas surgiram nas rodas de conversa e até hoje são usadas nas comunidades. Algumas delas continuam sendo ensinadas pelas benzedeiras e outras são repassadas em casa, geralmente entre as mulheres, de geração para geração.
Para problemas de garganta e pulmão ou gripe: colocar em uma vasilha seis folhas de ameixa de inverno e cinco colheres de açúcar. Queimar a mistura com brasas incandescentes, colocando, ao mesmo tempo, cravo e canela. Em seguida, colocar uma xícara de leite fresco ou de água. Tampar rapidamente. Essa é uma dose diária. Na região também são utilizadas outras folhas, como guaco, laranjeira, sálvia e eucalipto.
Outra receita bastante antiga e comentada é para insônia, hipertensão, estresse, menopausa e problemas digestivos. Em um litro de vinho branco – dizem que precisa ser “do bom” – colocar 2 colheres de flor de camomila. Deixar descansar por 10 dias e depois tomar um copinho entre as refeições. Diz que essa receita era usada pelos “viventes de guerra”.
Para tosse: pingar algumas gotas de pinga em uma colher com óleo. Flambar essa mistura. Depois utilizá-la para massagear o peito e, em seguida, embrulhar o local com um pano para deixá-lo aquecido.
Para “bichas” de criança (nome dados aos vermes): colocar alho em um vidro com vinagre e dar para a criança cheirar. Depois, passar um pouco da mistura atrás da orelha e ao redor do umbigo.
Para picadas de insetos: pegar a cebolinha do quintal e cobrir o local da picada.
Para bronquite: na lua minguante, torrar nove sementes de algodão. Então, amassar as sementes torradas e com elas fazer três chás, para tomá-lo por três dias.

FRUTIFICANDO OS SABERES
Em uma atividade de ensino, elabore um questionário para pesquisa com as famílias sobre quais são as plantas que eram ou ainda são utilizadas como alternativa para a prevenção ou cura de doenças na sua comunidade. Promova a construção de uma exsicata* com as principais informações da planta e seus usos. Faça um comparativo com os medicamentos produzidos pela indústria farmacêutica e estimule a descoberta de quais remédios comercializados também utilizam plantas em sua formulação.
*Coleção com amostras de plantas secas e prensadas, fixadas em cartolinas com identificação, contendo as principais informações sobre as espécies coletadas.

Sinais e saberes do meio

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Os saberes surgem, muitas vezes, de observações da natureza e se relacionam diretamente com o dia a dia de quem vive integrado ao manejo dos recursos naturais. E desse cotidiano surgem mais crendices e conhecimentos. Vamos conferir os conhecimentos que São Mateus do Sul tem para dividir?
Você conhece os sinais da floresta? Antigamente usavam os pinheiros para prever o tempo. Se um galho estourasse e caísse de repente, causando um grande barulho na floresta, era sinal de uma grande enchente. Já se a ramagem se virasse em direção ao sol nascente, era sinal de bom tempo. No sentido contrário, anúncio de temporal.
Outro interessante costume contado é que quando o galho da madeira da araucária rangia e alguém da família havia morrido, seria um aviso para os familiares utilizarem essa madeira para fazer o caixão do falecido. E, se a madeira de araucária for encontrada caída no mato, poderia ser um sinal de doença na família.

Para achar água ao redor da casa

Você sabia que antigamente muitas pessoas usavam um ensinamento para achar o poço de água? Com um galho de pessegueiro (preferencialmente), no formato de uma forquilha, se percorre o terreno. Quando o galho começar a entortar, logo abaixo, é sinal de ter encontrado a vertente de água. Que tal repetir essa técnica no quintal da sua casa?

Observando os animais

Os mais antigos contam que “quando as saracuras cantam no chão, é para tempo bom”, mas “se cantarem nos galhos das árvores, é para vir chuva”.
E se “algum pássaro ou borboleta, de cores alegres, entrar em casa, é notícia que virá visita de longe e que será boa”.
Mas quando uma coruja passa perto da casa e faz “um som de rasgar um tecido”, haverá morte de parentes. As pessoas contam que os chinelos devem ser virados quando se escuta esse som.
Muitas vezes, encontramos sapos ao redor de nossas casas e, de repente, todos somem. Os mais antigos contam que, nessas situações, ali se encontra uma cobra. Para achar o seu “esconderijo”, indicam jogar alho amassado no quintal. Nas conversas pelo interior, o projeto escutou que, hoje em dia, não matam mais o animal, mas que chamam o “órgão competente”.

FRUTIFICANDO OS SABERES
Conhecer os animais que estão próximos à nossa casa e saber a importância de cada um na natureza nos remete ao cuidado do meio no qual estamos inseridos. Promova uma pesquisa sobre quais são os animais peçonhentos existentes na comunidade e qual a importância deles no ecossistema. Pesquise, também, sobre os mitos e verdades sobre esses animais. Isso certamente será uma maneira de discutir sobre as injustiças praticadas com a fauna, auxiliando na conservação dessas espécies e da própria floresta.

Previsão do tempo

Você sabia que até hoje muitas pessoas que moram no interior planejam o início ou fim do plantio e da colheita baseadas na previsão do tempo da Profecia do Monge João Maria? Vamos conhecer?
A partir do dia de São João, 24 de junho, se contam 12 dias. Cada dia corresponderá a um mês do ano. Para isso, é necessário observar e anotar as variações do clima, de cada um desses dias, pela manhã, tarde e noite. Observe:
– Dia 24/06: frio pela manhã; quente pela tarde e frio (com geada) para a noite. Os 10 primeiros dias do mês seguinte, julho, serão frios. Os 10 dias seguintes serão quentes e os 10 últimos dias serão de muito frio, com previsão de geadas.
– Dia 25/06: previsão para o mês de agosto.
– Dia 26/06: previsão para o mês de setembro.
E assim por diante, prevendo todos os meses do ano!

Simpatias rurais

Você já parou para pensar que, não há muito tempo, os meios de transporte eram os cavalos, burros, bois? Os animais foram utilizados por muitos e muitos anos. Mas como as pessoas faziam para não ter dor nas costas e continuarem os seus percursos? Os antigos contam que o pelego, aquela lã colocada sobre os arreios para tornar o assento do cavaleiro mais confortável, também servia como “cama, massageando e evitando as dores”. A dica dada foi: o pelego deve ser ”bem macio e escovado, como um maço de algodão”.
Muitas pessoas que moram no campo e criam animais também pedem ajuda ao Negrinho do Pastoreio. Sabe como? Quando a criação de animal é perdida, se acende uma vela para o Negrinho, que logo irá devolver os animais. Apesar de ser uma lenda surgida em outros locais do Brasil, é muita usada em São Mateus do Sul, evidenciando a miscigenação da região.

FRUTIFICANDO OS SABERES
Você pode propor a construção colaborativa de uma linha do tempo sobre os meios de transportes que existiam antigamente e como esses foram se modificando até os dias atuais.
Juntos, calculem o tempo de transporte de pessoas e mercadorias com os diferentes meios de transportes pesquisados. Conversem sobre comércio, relações entre comunidades e bairros do seu município.
A atividade pode ser enriquecida com um estudo comparativo de como eram as formas de comunicação antigamente. Façam, também, uma linha do tempo para descobrir as mudanças dos meios de comunicação.

Lendas e Causos na vida de São Mateus do Sul

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São Mateus do Sul é formada por uma cultura muito rica e por pessoas que ainda encontram nas lendas e superstições formas concretas de se relacionar com o meio em que vivem. Nesse mundo, aparecem lendas conhecidas como a do lobisomem, mas também “causos” muito específicos da região. Vamos conferir?

Refletindo sobre os saberes
Trabalhar com as histórias de moradores antigos da comunidade auxilia na compreensão da sua cultura e valoriza a identidade local.

FRUTIFICANDO OS SABERES
Que tal contar as lendas e causos aqui descritos com a ajuda das crianças e depois convidá-las a desenhar, construir cenários, fantoches e realizar representações dessas histórias com peças teatrais?
Uma roda de leitura com as crianças certamente estimulará a criação de outros personagens, fazendo com que se enriqueça ainda mais essa atmosfera tão encantadora.
Para os estudantes já letrados, você pode fazer uma redação continuada com outros elementos e personagens da região, tornando o processo de contação ainda mais interessante.

O bugreiro

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Os mais antigos contam que o bugreiro é uma árvore cheia de “cascudos” e que pode nos dar “pintinhas” se ficarmos embaixo dela. Diz a lenda que, se uma pessoa passar embaixo do pé de bugreiro e não cumprimentá-lo ou não pedir licença, essa tal alergia aparece. Então, o indicado é dizer “bom dia, compadre” ou “boa tarde, compadre” sempre que passar por essa árvore.

Os causos da Floresta com Araucária

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Os antigos contam que se escondiam baús de ouro embaixo dos pinheiros. Falam, também, que não se podia fazer a retirada da árvore nos meses com a letra “r”. Os únicos meses de corte seriam os meses de maio, junho, julho e agosto. Que tal perguntar para as pessoas mais antigas da sua comunidade por que esse era o costume?
Também há a lenda do capim. Diz essa lenda que, se alguém andasse na floresta entre meio dia e três da tarde ou às seis da tarde e se encostasse em um determinado tipo de capim, ficaria perdido na mata.

A Serra dos Gordia

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A Serra dos Gordia divide o município de São Mateus do Sul e São João do Triunfo, pelo rio Papuã. Conhece os causos dessa Serra? Há vários deles por aí… Se conta, por exemplo, uma história assustadora de dois homens que apostavam corridas a cavalo e que se mataram por causa das disputas. No local onde fixaram suas cruzes, eles são vistos vagando em cima de seus cavalos.
E os mais antigos falam que por ali há, inclusive, um “bradador”. Se trata de um ser que berra à noite nos campos e na mata, parecendo um homem desesperado. Dizem que se você o imitar nas noites de lua cheia, ele vem até você.
Outra história contada é que existe no paredão da Serra dos Gordia uma porta, talvez construída pelos jesuítas, com palavras gravadas em outra língua. Ninguém sabe o que há atrás dessa porta e nunca conseguiram abri-la. Aproveite sua curiosidade para conhecer essa misteriosa região.

A Lenda da Gralha Azul

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Existia antigamente uma gralha parda. Certo dia, ela pediu a Deus uma missão. Deus deu a ela, então, alguns pinhões. A gralha pegou as sementes, comeu algumas e as outras ela guardou no chão. Mais tarde, a gralha as procurou, mas não as encontrou. No local havia lindas árvores de araucária, que até crescerem foram cuidadas pela gralha. Comeu outras sementes, enterrou algumas e assim muitas araucárias brotaram. Se conta que dessa forma surgiu a Floresta com Araucária. E Deus, ao ver a beleza e valor da floresta, pintou as penas da gralha de azul como a cor do céu.

FRUTIFICANDO OS SABERES
Você sabe quem eram os primeiros habitantes da sua região? Pesquise sobre sua língua, sua cultura e seus hábitos. Como será que essas pessoas utilizavam os recursos do meio em que viviam?

O Monge João Maria

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Contam que, onde o Monge João Maria dormia, uma vertente de água nascia. Ele também curava as pessoas com ervas e chás da floresta. Diferentes pessoas relatam histórias mais íntimas com o monge. Algumas dizem que o viram passar pela região e que suas profecias eram como parábolas. Dizem até que, se maltratado, ele podia castigar as pessoas, já que aparecia como um “senhor de idade andarilho” em muitos locais, testando a bondade das pessoas.

Pinhão para sapecar em uma floresta mais exuberante

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Muitos relatos trazidos ao projeto Morada dos Saberes narram uma floresta mais exuberante e com mais vida em um tempo passado. Contam que havia mais pinheiros e pinhões nas nossas matas. E mesmo com as dificuldades da vida antiga, procuravam usar a madeira das árvores com mais cautela, apenas para as necessidades locais.
Também contam os mais antigos que buscavam pinhões para sapecar. As mulheres faziam um monte de sapê, jogavam os pinhões ali e colocavam fogo. Quando o fogo apagava, os pinhões já estavam assados e era muito gostoso saboreá-los dessa maneira. Certamente, muitas das histórias aqui contadas nasceram e se perpetuaram nesses momentos da vida antiga.

Refletindo sobre os saberes

Você é produto do meio e da cultura em que vive, mas também reproduz nesse meio a sua cultura, por meio de suas ações. O folclore e as práticas culturais são patrimônio da humanidade. As cerimônias, os rituais, as crendices populares, as danças, as comidas, as vestimentas, tudo isso, são marcas de um povo. Elas contam histórias, nos conduzem às nossas origens e constroem a cultura.
As escolas podem usufruir o folclore como um promotor da cultura, auxiliando a comunidade a valorizar os costumes regionais, entendendo as práticas culturais como mantenedoras da história, das origens. Além disso, favorecem o respeito às diferenças sociais, culturais, éticas e étnicas de um povo.
O folclore convida todos, adultos e crianças, a se mexerem e a imaginarem. Estabelece regras e conta histórias. Integra as pessoas e os grupos nas relações de espaço e tempo.

O Boitatá de São Mateus do Sul

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Certo dia, em um barbaquá, apareceu uma senhora com aparência bem idosa, usando um vestido bastante velho e rasgado. Pediu aos trabalhadores um prato de comida. A senhora, recebendo o que pediu, ficou feliz e foi embora. Chegando a noite, quem ali pousava para colocar lenha nas fornadas de secagem da erva-mate, ouviu um enorme barulho próximo à pequena casa que a velha senhora morava. Lá chegando, os trabalhadores viram uma enorme bola de fogo no céu. Observando com mais atenção, viram o vestido da velha dentro da bola de fogo.
Também contam na região que boitatá sempre é mulher, enquanto o lobisomem, homem. E por isso é comum escutar “a Baitatá”. Se ela for uma bola de fogo transformada de gente viva, brilhará em cor vermelha. Mas se for de gente morta, brilhará em azul. A Baitatá se transforma para poder rodear a casa dos outros e escutar as histórias mais íntimas das famílias. Então, algumas comunidades costumam dizer que a mulher fofoqueira dali pode ser a Boitatá. Para pegá-la, precisa rezar a “Ave Maria” de trás para frente e prendê-la em um rosário. Se conseguir isso, na manhã seguinte estará virada novamente em mulher, ali no mesmo local em que foi pega.

FRUTIFICANDO OS SABERES
Descubra se existem palavras e expressões típicas da região. Como as palavras eram faladas pelos mais antigos? A ideia é construir um dicionário popular e se divertir com essas expressões.

Abaixo incluímos algumas expressões já coletadas pelas caminhadas em São Mateus. Confira!

Iniciando o Dicionário Popular de São Mateus do Sul
Irone Faria e Zeli Postai Lugarini

  • – “aí que a porca torce o rabo”: as coisas pioram
  • – “apinchar”: se jogar
  • – “arrumou sarna pra se coçar”: procurar confusão
  • – “bardento”: mimado
  • – “bodega”: bar/armazém
  • – “bosta nenhuma”: coisa alguma
  • – “camarada”: ajudante de serviço
  • – “campear”: procurar algo
  • – “canhada”: uma baixada acentuada
  • – “cargas d´água”: qualquer motivo
  • – “carrero”: atalho
  • – “de vereda”: de repente
  • – “descascar água”: chover bastante
  • – “empacar”: não sair do lugar
  • – “em cima do muro”: indeciso
  • – “estar com os parentes reunidos”: estar de mau humor
  • – “ficar na moita”: observar
  • – “fogo de palha”: volúvel
  • – “foi-se o boi com a corda”: deu algo errado
  • – “garrou o mato”: foi embora
  • – “jaguara”: malandro, sem respeito
  • – “logrou”: tirou sem consentimento
  • – “pialo”: deu um pulo ou um golpe
  • – “pichinchar”: negociar
  • – “proziá”: conversar
  • – “revertério”: mudança de situação
  • – “rolar a descida”: já chega lá
  • – “se lascar”: prejudicar
  • – “se rodear”: se demorar
  • – “seguido”: sempre
  • – “sossegue ou apague o pito”: fique calmo
  • – “vorta e meia”: quase sempre

O Bugio e a História do Leite

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Em uma pequena localidade do interior, havia um leiteiro muito ganancioso. Para enganar seus fregueses, colocava água no leite. O que ele não sabia é que havia um bugio que sempre o observava e via onde o homem escondia seu saco de dinheiro. Certo dia, o bugio pegou esse dinheiro e fugiu. O homem, quando percebeu, correu atrás do bugio, mas ele já havia jogado o saco no rio. O macaco então falou: “tudo que a água trouxe, a água levou!”.

Histórias de Arrepiar

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Alguns antigos contam que, no período da quaresma, em cima dos pinheiros, havia um esqueleto que aparecia nas noites mais escuras. O chamavam de corpo-seco.
Também contam que, na região de São Mateus do Sul, já foram vistas mulas sem cabeça, lobisomens e sacis de carapuças vermelhas. As histórias narram que os antigos espiavam pelos buraquinhos nas paredes, enquanto os lobisomens chegavam até a brincar com os cachorros. E os sacis precisavam ser pegos com peneiras para não aprontar mais. Se conseguisse retirar sua carapuça, a pessoa ainda poderia ter um desejo realizado.
E sobre a “esmoura”, você já ouviu falar? É como alguns chamam as bruxas na região. Ela vem para sugar sua energia enquanto você dorme. Mas um copo d’ água perto da cama pode protegê-lo. Dormir acompanhado também. E outros dizem que para uma proteção forte é necessário ser batizado. Caso seja uma criança ainda sem batismo, um rosário deve ser colocado por perto.
E as “visages”? Quais dessas você conhece? Pelas caminhadas no interior, é comum escutar sobre o aparecimento de coisas incomuns e inexplicáveis. Escutamos sobre os cavalos quietos na estrada, que de noite apareciam, mas ao amanhecer já não estavam mais ali, sem deixar nenhum rastro. Também escutamos sobre seres que não eram vistos, mas eram sentidos no peso das pedaladas da bicicleta, como se estivessem na garupa. Ou ainda de uma noiva que aparecia, mesmo após sua morte, para o ex-noivo, na tentativa de controlar a sua vida.

FRUTIFICANDO OS SABERES
Você pode organizar um projeto interessante para promover a troca de saberes e a interação das famílias, a partir de uma prática tão comum na região, que é a roda de chimarrão. O projeto deverá estimular os participantes a levarem um material para casa e organizar uma roda de histórias com seus familiares.
A ideia é montar uma sacola contendo diferentes histórias e lendas da comunidade e também um caderno para registro das experiências, novas histórias e lendas que surgirem na roda. Ah! E não se esqueça da cuia!
Durante o andamento do projeto pode ser realizada uma infinidade de atividades por meio da troca de experiências entre as famílias. Aproveite as dicas aqui sugeridas como um ponto de partida para registrar mais e mais detalhes de São Mateus do Sul!

Refletindo sobre os saberes
Os debates permitem que todos expressem as diferentes opiniões e encontrem diferentes soluções diante de um determinado problema.
É importante adaptar as diversas sugestões de atividades aos interesses, necessidades e faixas etárias dos interessados.
Interessante: escutar o que os participantes sabem e necessitam expressar; não se colocar como o único e principal informante; conectar o tema a outros conteúdos e à realidade.
Trabalhar as questões ambientais, seja em sala de aula ou em outros ambientes pedagógicos, transmite valores e promove atitudes e comportamentos que fazem com que a comunidade se sinta parte integrante do meio em que vive.

Assim como não há morada que possa guardar todos os saberes, nem este livro poderia narrar todo o conhecimento que circula em São Mateus do Sul. Seu desejo foi manter vivo o ciclo de interação entre cultura, pessoas e meio ambiente. Para isso, reuniu – muitas vezes em volta do chimarrão ou embaixo de uma araucária – ciência, mito, folclore, arte, cultura popular, jovens, crianças, idosos, pesquisadores, benzedeiras, professores, alunos, animais, plantas e rios, dando a eles o devido protagonismo e empoderamento. Então, cada um pôde contar, em seu ponto de vista e a seu modo, como enxerga o mundo e a cidade em que vive. Assim, a junção dessas inúmeras perspectivas forma uma teia de saberes ricos e plurais, que respeitam o passado, mudam o presente e vislumbram o futuro, garantindo o legado de São Mateus do Sul e de sua gente.
Nossa Morada se sentiu agraciada em ser o hábitat de tão nobres saberes, que agora continuam sua viagem a outras paragens.

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